Eu não luto contra os meus princípios, e por mais abomináveis que meus pensamentos sejam, faço questão de ficar quieta apreciando tudo que se passa pela minha mente. Eu não me culpo, não sofro, não sinto remorso. Não tenho demônios interiores. Faz parecer que eu não me importo. E pra ser franca, eu realmente não me importo.
Já faz algum tempo desde que me perdi no caminho, mas eu construí minha própria estrada. Fiquei sozinha, claro. E a solidão não é a coisa que os humanos mais temem? Eu devia achar isso um pesadelo. Só devia.
Talvez eu tenha morrido na queda e deixado de ser humana. Eu morri pouco depois de completar oito anos, apesar de só ter me dado conta disso aos poucos, enquanto ia cada vez mais fundo pelo caminho que eu mesma criei. Minha infância foi roubada cedo demais e eu pulei a adolescência. E ainda assim não sou adulta. Eu congelei quando morri e não tenho mais definição. Uma garota que foi destruída quando pequena, continuou adquirindo experiencia e apesar disso é fantasiosa demais para ser adulta.
Contando desse jeito parece uma história triste, mas eu garanto que tenho bagagem o bastante pra viver sem achar ruim. O problema nunca foi comigo. Eles sempre vem de fora. E a dor me fez mais dura que um diamante. Minha infância foi um conto de fadas, e eu sinto saudade. Eu vivia num casarão enorme e bem cuidado, era mimada e tratada feito princesa e tão inocente que chegava a ser irritante. Eu ainda passo em frente ao casarão quando volto da escola (abandonado e caindo aos pedaços). É claro que é nostálgico. Saí de lá dois meses depois do meu aniversário de oito anos, quando o meu céu caiu e eu fiquei oscilando entre o inferno e a mentira.
As únicas coisas com as quais se deve lutar são as que vem de fora. Meus pensamentos e opiniões nunca me machucaram. Só quem pode te machucar são as pessoas.
Não estou mandando ninguém virar sociopata (apesar de eu mesma ter algumas tendencias a isso, em termo de desprezar leis e viver de acordo com minhas próprias regras). Mas eu não acho que sentimentos sejam dispensáveis. Eu posso ser reservada na maior parte do tempo, mas no fundo me comovo com algumas coisas. Quando alguém me pede colo eu não sei dizer não. Sinto uma necessidade bizarra de cuidar de todo mundo, de não deixar eles saírem da linha. No meu caso não teve um resultado tão ruim, apesar de eu ter perdido a inocência e as preocupações comuns a qualquer humano, mas e os outros? Cada um é cada um, pode não funcionar com eles como funcionou comigo. É melhor não arriscar.
E bem, eu posso ter o coração mole quando alguém precisa de ajuda, mas nunca procuro ninguém pra me ajudar. Porque são os outros que precisam disso. São os outros que tem demônios internos e lutam contra si mesmos. Eu encontrei a paz quando morri, apesar de não ter sido imediatamente. Não sei se eles teriam a mesma sorte. Demônios internos são muito mais difíceis de lidar do que os externos, mas você não pode se livrar dos dois. Pessoas que vivem na realidade, se preocupando com estudos e almoços de família são alheias aos demônios externos, porque elas não tem nenhum problema com a vida real. Mas não tem nenhum controle sobre si mesmas, e sofrem com crises interiores. No meu caso é mais fácil, já que selei um acordo de paz comigo mesma e só o que preciso fazer é bloquear os assuntos mundanos e continuar vivendo no meu próprio universo. Afinal, de quem você prefere ter que fugir? Dos outros ou de você mesmo?